A Revolução do Trabalho
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 A Revolução do Trabalho


 A Revolução do Trabalho  

Em busca de uma vida mais plena, cresce o número de pessoas que abrem mão do emprego tradicional para se reinventar profissionalmente. O resultado? As empresas e iniciativas criativas que estão surgindo já começam a revolucionar o mercado. Bem-vindo à era do trabalho com propósito

Quando conquistou o primeiro estágio, um pouco antes de concluir a faculdade de Comércio Exterior, a artesã Adriana Del Sarto, hoje com 41 anos, logo percebeu que se adaptar às regras de uma empresa não seria uma tarefa tão simples quanto imaginava. Para ela, seguir o exemplo do pai e fazer carreira em uma corporação era o caminho natural a ser trilhado. Então por que, mesmo trocando de emprego algumas vezes, aquele sentimento de inadequação nunca a abandonava? “Conforme o tempo foi passando, entendi que havia escolhido a profissão errada”, lembra. “Além disso, o estilo de vida que estava levando não me trazia nenhum tipo de satisfação.” Depois de pensar (e sofrer) um bocado, Adriana e o marido, que também era infeliz em sua atividade, decidiram mudar radicalmente: trocaram Santo André, no ABC paulista, por uma pequena cidade no interior de Minas Gerais, e os dois, que já se interessavam por artesanato, começaram a criar lembrancinhas personalizadas sob encomenda. Hoje são donos do próprio tempo, pois trabalham em casa, e oferecem os produtos em uma loja online. Se Adriana é realizada na nova atividade profissional? Muito! “Já tivemos que enfrentar uma série de perrengues, mas conseguimos nos manter financeiramente fazendo aquilo que amamos. Isso é maravilhoso”, comemora.

Assim como Adriana, muita gente tem criado coragem para largar o cargo que ocupa – mesmo que envolva salário alto, prestígio social ou benefícios generosos –, em busca de um trabalho que esteja alinhado com suas paixões, talentos, sonhos e valores. Um dos motivos que justificam essa mudança de comportamento? Cada vez mais pessoas estão se dando conta de que passam uma boa parte da vida se dedicando à carreira. Já que a realidade é essa, por que não encontrar uma atividade que combine realização material e emocional?

Na era da tecnologia // Essa combinação entre realização material e satisfação emocional é possível, sobretudo, por causa da avassaladora revolução tecnológica que estamos presenciando de duas décadas para cá. Aliás, esse é um dos fatores que torna viável a mais e mais pessoas escolherem onde e como desejam trabalhar. Enquanto a globalização praticamente derrubou as fronteiras entre os países, a democratização da internet proporcionou uma troca infindável de ideias e fez surgir inúmeras conexões. Com o advento da banda larga, muita gente agora pode exercer as suas funções longe do escritório – ou melhor, em qualquer canto do planeta.

Essa mobilidade – somada à vontade de encontrar uma carreira que realmente esteja em sintonia com o seu “eu” verdadeiro – está ajudando as pessoas a criarem diferentes jeitos de trabalhar. Para as autônomas, por exemplo, existe a opção do home office e do coworking, um tipo de escritório compartilhado (saiba mais no box desta matéria). No entanto, de acordo com André Pegorer, um dos sócios do NEX, coworking com unidades em Curitiba (PR) e no Rio de Janeiro (RJ), o perfil dos usuários desse espaço está mudando. “Agora, além de atendermos startups e microempresas com três ou quatro funcionários, as grandes corporações estão deslocando parte dos seus times para o coworking”, conta. Segundo ele, isso acontece por causa da economia de custos e, sobretudo, porque as companhias estão interessadas em uma nova cultura de trabalho. “Como profissionais de diversas idades e áreas de atuação participam do coworking, isso ajuda a fomentar a inovação, a criar conexões e, muitas vezes, até a gerar negócios”.

Trocando em miúdos, o encontro de indivíduos diferentes (ou nem tanto) dá origem a empreendimentos colaborativos e a empresas que saem totalmente do lugar comum. Algumas, por exemplo, são organizadas de forma horizontal, ou seja, não possuem uma hierarquia clara. Um exemplo é a agência de publicidade Humans, de São Paulo, fundada em janeiro deste ano – ela não tem sede nem chefe e os 18 funcionários, que na verdade são sócios, não recebem um salário fixo mensal.

O mercado do futuro // Segundo especialistas em carreira, a automação e a inteligência artificial continuarão abrindo espaço para o aparecimento de novos modelos de trabalho e até mesmo de profissões. Para se ter uma ideia, um estudo realizado em 2016 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) indica que aproximadamente 65% das crianças de hoje trabalharão em carreiras que ainda nem sequer foram inventadas.

Como a tecnologia passou a desempenhar muitas funções que eram exercidas pelo homem, resta-nos questionar que papel assumiremos no mercado daqui em diante. “Vejo um cenário que exige do indivíduo cada vez mais protagonismo e autonomia, além de habilidades emocionais como a empatia, a resiliência e a criatividade, mesmo que ele atue em uma organização estruturada”, constata a coach Mônica Barroso, que também é curadora de programas da unidade brasileira da The School of Life – organização fundada na Inglaterra, em 2008, que oferece cursos e workshops voltados ao desenvolvimento da inteligência emocional em diferentes países. “O grande desafio da nova era é conciliar os recursos tecnológicos com os nossos anseios, a ciência com a dignidade humana”, complementa.

Outro ponto a ser considerado é que a noção de carreira para vida toda deixa de ser predominante, já que a crescente longevidade da população vem abrindo um universo de possibilidades. Pesquisas revelam que o profissional de hoje tem em média duas ou três carreiras diferentes ao longo da sua vida – e isso faz com que busquemos relações mais fortes e genuínas com o trabalho. Muita gente, no entanto, ainda vai além: quer deixar um legado ao mundo, gerar um impacto positivo na sociedade.

Como achar o seu propósito // Todo mundo tem potencial para encontrar um trabalho que satisfaça as suas necessidades materiais e emocionais, mas é preciso uma certa dose de coragem e disposição para sair da zona de conforto e explorar outros caminhos. O primeiro passo é investir no autoconhecimento – ao reconhecermos nossas habilidades, objetivos e competências, nos fortalecemos emocionalmente em direção a escolhas mais assertivas. De acordo com a coach, esse mergulho interno pode acontecer de diferentes maneiras. Um exemplo? Revisitar a própria história de vida é um recurso poderoso de reconexão com a nossa essência. Uma alternativa é realizar pequenos experimentos que permitam vivências práticas de novas possibilidades. “O bom é que, caso não deem certo, a consequência não será tão dramática”, afirma Mônica Barroso.

Também pode ser produtivo sair do seu círculo social e se relacionar com outras pessoas, em ambientes diferentes – muitas vezes, é nesses momentos que acabamos descobrindo aptidões escondidas. Seja como for, acredite que é possível ganhar dinheiro fazendo um trabalho que ame. Resista às pressões da sociedade – que sempre nos pede respostas imediatas – e permita-se o tempo necessário para que essa busca, pessoal e intransferível, gere bons frutos.

A revolução tecnológica possibilita às pessoas escolherem onde e como desejam trabalhar

Assim como novas formas de trabalho surgem, o cenário exige indivíduos cada vez mais resilientes e criativos

O que é, o que é?

Confira o significado de alguns termos que entraram de vez para o universo do trabalho.

COACH: profissional que conduz o seu cliente a reflexões capazes de gerar um aprimoramento pessoal. O coach pode se especializar em uma área (a profissional, por exemplo) ou atuar em várias frentes diferentes.

COWORKING: escritório compartilhado por vários tipos de profissionais (autônomos ou contratados por empresas diversas), não necessariamente vinculados entre si. É um espaço com boa infraestrutura física e que permite a troca de experiências.

HOME OFFICE: ao pé da letra, quer dizer “escritório em casa”. Algumas empresas permitem que os seus funcionários façam home office. Quem atua como freelancer ou é dono de uma empresa também pode trabalhar nesse esquema.

STARTUP: time de pessoas que se reúne em torno de uma ideia inovadora para tentar transformá-la em um negócio estruturado e rentável.